Facções transformam adolescentes em ‘soldados do crime’ no Estado
As organizações criminosas que atuam em Mato Grosso têm ampliado o recrutamento de adolescentes para diferentes frentes de atuação, desde execuções determinadas por facções até crimes cibernéticos e esquemas de exploração sexual.
Casos registrados nesta semana revelam um padrão que preocupa as forças de segurança: jovens são atraídos por dinheiro fácil, pressionados por dívidas, aliciados pela internet ou seduzidos por falsas promessas de ascensão social.
O episódio mais emblemático ocorreu em Cáceres (225 km a Oeste de Cuiabá).
Um adolescente de 17 anos confessou participação na execução de Renato da Silva, de 28 anos, morto por determinação da facção criminosa Comando Vermelho (CV).
Segundo a investigação, o homicídio foi a forma encontrada pelo jovem para quitar uma dívida de R$ 5 mil contraída com a facção.
O caso chamou ainda mais atenção porque o adolescente já havia sido apreendido por outro homicídio, aguardou vaga no sistema socioeducativo por cinco dias e acabou liberado por falta de espaço.
Dias depois, voltou a matar.
O delegado responsável pelo caso alertou que, se novamente não houver vaga, ele poderá ser colocado em liberdade, mais uma vez.
Para especialistas em Segurança Pública, o episódio ilustra uma das principais estratégias das facções: transformar adolescentes em executores.
Além de serem mais suscetíveis ao aliciamento, menores de idade costumam conhecer as comunidades onde vivem, despertam menos suspeitas e estão sujeitos a uma legislação diferenciada em relação aos adultos, fatores explorados pelas organizações criminosas.
CRIME NAS REDES – O recrutamento dos jovens, porém, vai muito além das execuções.
Na sexta-feira (7), a Polícia Civil deflagrou a Operação Discórdia, para desarticular uma rede criminosa que utilizava o aplicativo Discord para aliciar crianças e adolescentes.
As investigações apontam que os suspeitos persuadiam as vítimas a enviar imagens íntimas e, posteriormente, as ameaçavam de divulgar o material, caso não produzissem novos conteúdos ou praticassem atos de automutilação.
A operação cumpriu mandados nos estados do Rio de Janeiro, Santa Catarina e Minas Gerais, a partir de investigações iniciadas em Tapurah (433 km a Médio-Norte de Cuiabá).
Segundo a Polícia Civil, duas vítimas menores já foram identificadas, uma delas em Mato Grosso.
Os investigadores descobriram grupos organizados na plataforma digital que funcionavam como ambiente de cooptação e chantagem, evidenciando que a internet se tornou uma das principais portas de entrada para esse tipo de crime.
Outro caso que chamou atenção das autoridades envolve um vídeomaker preso durante a Operação Jogo Sujo, em Várzea Grande (área metropolitana de Cuiabá).
Ele é investigado por suspeita de aliciar adolescentes com promessas de vagas em equipes de futebol amador, em troca de relações sexuais.
Conforme a Polícia Civil, as investigações começaram após denúncias de que menores eram atraídos pela expectativa de ingressar em equipes esportivas.
A defesa afirma que o caso ainda está em fase inicial de investigação, e destaca que o suspeito possui histórico de atuação em projetos sociais e ainda não é réu no processo.
Embora distintos, os três episódios revelam um mesmo fenômeno: o aproveitamento das vulnerabilidades da juventude por redes criminosas.
Em um caso, a necessidade de quitar uma dívida levou um adolescente a participar de uma execução.
Em outro, criminosos utilizaram as redes sociais para manipular menores emocionalmente.
Já na investigação envolvendo o futebol, o sonho de conquistar espaço no esporte teria sido usado como instrumento de aliciamento.
Para as forças de segurança, esse modelo de atuação representa um desafio crescente.
DESAFIO – O combate às facções deixou de se restringir ao tráfico de drogas e passou a envolver a prevenção ao recrutamento de adolescentes, tanto no ambiente físico quanto no virtual.
A internet, os aplicativos de mensagens e as redes sociais ampliaram a capacidade de alcance das organizações criminosas, que hoje conseguem identificar, convencer e controlar jovens mesmo à distância.
Além da repressão policial, especialistas defendem que o enfrentamento desse fenômeno depende de políticas públicas voltadas à permanência de crianças e adolescentes na escola, fortalecimento das famílias, ampliação das oportunidades de esporte, cultura e qualificação profissional, além de maior vigilância sobre o ambiente digital.
Os casos registrados nesta semana demonstram que o recrutamento de adolescentes já faz parte da estratégia de expansão das organizações criminosas em Mato Grosso.
Seja pela promessa de dinheiro, pela exploração de sonhos ou pela manipulação psicológica, as facções buscam renovar continuamente seus quadros, tornando a proteção da juventude um dos principais desafios da segurança pública no Estado.
Fonte: www.diariodecuiaba.com.br
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