Caiu num golpe online? Especialista explica o que fazer para não perder seu dinheiro
Recebeu uma mensagem suspeita, fez um Pix e só depois percebeu que caiu em um golpe? O que muita gente não sabe é que os primeiros minutos após descobrir a fraude podem fazer toda a diferença para tentar recuperar o dinheiro perdido e ajudar nas investigações policiais.
Os golpes digitais estão cada vez mais sofisticados e utilizam desde falsas promoções até mensagens que simulam cobranças, compras indevidas no cartão de crédito e páginas idênticas às de grandes empresas. Diante disso, além de aprender a identificar as fraudes, é fundamental saber como agir quando elas acontecem.
Em entrevista ao Primeira Página, o advogado especialista em Direito Digital, Raphael Chaia, e a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul (PCMS), explicaram quais cuidados podem evitar prejuízos e quais medidas devem ser adotadas imediatamente após a vítima perceber que caiu em um golpe.
Não bloqueie, não delete: guarde tudo
O primeiro instinto de quem percebe que foi enganado costuma ser bloquear o golpista e apagar as mensagens. Segundo Chaia, esse é exatamente o erro a ser evitado.
“Não saia bloqueando o golpista, não saia deletando as mensagens. Guarde tudo, porque tudo é prova que vai ser utilizada para resguardar o seu direito”, orientou.
O especialista recomenda preservar conversas de WhatsApp, e-mails, comprovantes de pagamento, boletos, extratos bancários, links recebidos e qualquer canal usado na comunicação com o golpista.
Já a PCMS ressalta que a a vítima não deve se colocar em risco, realizar pagamentos, instalar aplicativos, compartilhar a tela do aparelho, abrir links suspeitos ou fornecer novas informações apenas para produzir provas.
Caso perceba a fraude durante uma conversa exclusivamente virtual, poderá, sem se expor, registrar as mensagens e os dados que já estejam disponíveis. Não é necessário confrontar o autor ou avisá-lo imediatamente de que o golpe foi descoberto.
O que fazer quando perceber o golpe
Conforme a Polícia Civil, a primeira medida é não realizar o pagamento e não fornecer novos dados, interrompendo o contato com o estelionatário. Caso tenha informado senha, código ou dados bancários, deve entrar imediatamente em contato com sua instituição financeira pelos canais oficiais, alterar as credenciais comprometidas e verificar se houve movimentação não reconhecida e avaliar junto ao banco a necessidade de bloqueio de cartões ou transações.
Também é recomendável registrar a ocorrência, especialmente quando houver identificação de contas bancárias, números telefônicos, perfis ou outros dados que possam ser relacionados a novas tentativas contra outras vítimas.
Print não é prova, mas ainda ajuda
Muita gente acredita que tirar print da tela é suficiente para provar um golpe. Chaia alerta que isso não é mais verdade nos tribunais.
“Print já não é mais considerado prova há muito tempo. Ele pode ser considerado como indício para uma investigação, mas não como prova para fundamentar uma decisão, porque imagens são editáveis”, explicou.
Segundo a PCMS, a vítima deve guardar todas as informações relacionadas ao golpe, como número de telefone, mensagens, áudios, anúncios, perfis utilizados e dados bancários informados pelo golpista. Também é importante apresentar a conversa completa para mostrar como ocorreu a abordagem e informar como teve contato com o suspeito.
Além disso, o extrato detalhado da transação fraudulenta deve ser levado à delegacia para auxiliar na identificação da conta que recebeu o dinheiro.
A alternativa mais segura é registrar as provas em plataformas digitais especializadas, que certificam os metadados dos arquivos e garantem que o conteúdo não foi alterado. Outra opção é a ata notarial, feita em cartório, que também tem validade judicial. Qualquer pessoa pode fazer, sem precisar de advogado. O ponto negativo é o custo, que pode ser elevado.
“Qualquer um pode fazer a ata notarial e já pode levá-la pronta antes de fazer o boletim de ocorrência”, afirmou Chaia.
Pix caiu na mão do golpista? Ligue para o banco agora!
Se a transferência já foi feita, o tempo é o maior inimigo da vítima. O Banco Central do Brasil (BCB) disponibiliza um mecanismo chamado bloqueio cautelar, que permite solicitar ao banco o congelamento do valor transferido antes que o golpista o retire.
“Se o golpista receber o dinheiro e tirar de lá, que é o que acontece em 99% dos casos, não adianta nada, você não vai recuperar nada”, alertou o especialista.
Além disso, o banco pode ser responsabilizado mesmo que o golpista não seja encontrado. Segundo Chaia, o judiciário já reconhece que as instituições financeiras conhecem o perfil de gastos dos seus clientes e têm tecnologia para identificar movimentações suspeitas.
“Se você está acostumado a pagar suas contas e de repente resolve fazer um monte de empréstimo e tirar todo o dinheiro da conta, isso é uma movimentação que foge do padrão. O banco deveria entrar em contato”, explicou. “Você pode processar o banco para reaver esses valores, ainda que não consiga localizar o golpista.”
Os erros que facilitam o trabalho dos golpistas
Chaia listou os dois erros mais comuns cometidos pelas vítimas. O primeiro é a hiperexposição nas redes sociais. Publicar o nome do cachorro, o time favorito, a data de nascimento ou o nome dos filhos entrega exatamente as informações que os golpistas usam para descobrir senhas.
“A maioria dos golpes de invasão em conta bancária não tem nada a ver com hackeamento pesado. O golpista vai pegando informações da sua rotina e jogando até descobrir a senha”, explicou.
O segundo erro é clicar em links sem verificar a origem. Golpistas usam gatilhos psicológicos, como ofertas tentadoras ou mensagens de cobrança, para provocar uma reação impulsiva.
“Viu uma oferta boa demais para ser verdade? Não clica no link. Vai no navegador, digita o endereço do site e confere se a oferta existe”, orientou.
Segundo a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul (PCMS), entre os erros mais comuns cometidos pelas vítimas está apagar as conversas com os golpistas antes de registrar os contatos ou procurar a polícia sem apresentar comprovantes de pagamento e demais evidências do crime.
A omissão de informações sobre a forma como o golpe aconteceu também é um fator que pode dificultar significativamente o trabalho dos investigadores.
Por medo, vergonha ou receio de serem julgadas, muitas vítimas deixam de relatar detalhes importantes do ocorrido. No entanto, qualquer informação pode ser fundamental para o andamento das investigações. A falta de dados ou de provas pode atrasar a apuração dos fatos e, em alguns casos, até impedir a adoção de medidas que contribuiriam para a identificação dos criminosos.
O que fazer imediatamente
Segundo Chaia, o prazo ideal para agir é sempre quanto antes. A orientação é reunir todas as provas disponíveis, ir pessoalmente a uma delegacia da Polícia Civil e relatar tudo detalhadamente. Com o boletim de ocorrência em mãos, é possível tomar as providências seguintes, como acionar o banco ou buscar orientação jurídica.
“Quanto mais tempo passar, mais difícil fica para resolver o caso”, concluiu.
Foto: Augusto Castro
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