Planos revelam quatro projetos para Mato Grosso
Documentos apresentados pelos candidatos ao Governo mostram diferenças sobre prioridades, papel do Estado e políticas públicas; saúde, educação, segurança, infraestrutura, agro, habitação e servidores estão entre os pontos que separam as propostas
Os quatro principais candidatos ao Governo de Mato Grosso chegam à eleição de 2026 defendendo caminhos diferentes para administrar um Estado que combina crescimento econômico, elevada capacidade de investimento e liderança nacional no agronegócio com problemas persistentes na saúde, segurança, habitação, saneamento e desigualdades regionais.
Os programas apresentados à Justiça Eleitoral por Otaviano Pivetta (Republicanos), Wellington Fagundes (PL), Natasha Slhessarenko (PSD) e Rafaell Millas (Missão) permitem identificar não apenas as promessas de cada candidatura, mas a visão que os concorrentes têm sobre o papel do Governo do Estado nos próximos quatro anos.
Há pontos de convergência.
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Os quatro tratam de saúde, educação, segurança e desenvolvimento econômico. Infraestrutura e melhoria dos serviços públicos também atravessam os projetos.
A diferença aparece principalmente em como pretendem chegar aos resultados e no peso atribuído a cada área.
Pivetta apresenta-se como candidato da continuidade de um modelo baseado em equilíbrio fiscal, capacidade de investimento, infraestrutura e parceria com os municípios.
Wellington procura marcar distância da atual administração ao defender um governo que classifica como mais “humano”, com maior presença social do Estado, regionalização dos serviços e valorização do funcionalismo. Em manifestações recentes, colocou saneamento, habitação e atendimento às regiões mais distantes entre suas prioridades.
Natasha dá maior peso à saúde, proteção social, políticas para mulheres e reconstrução da relação do Estado com seus servidores.
Millas apresenta uma proposta mais orientada por indicadores, estabelecendo metas mensuráveis em áreas como segurança, saúde, educação, infraestrutura e industrialização.
A comparação feita pelo DIÁRIO organiza as propostas em nove áreas que afetam diretamente a vida dos mato-grossenses.
PIVETTA APOSTA NA CONTINUIDADE
No caso de Pivetta, programa eleitoral e administração em curso inevitavelmente se confundem.
Governador desde 31 de março, ele assumiu um Estado cuja política econômica e fiscal ajudou a conduzir como vice de Mauro Mendes e chega às urnas defendendo a continuidade do ciclo de investimentos iniciado em 2019.
A infraestrutura permanece como um dos pilares.
O modelo prioriza rodovias, pontes, logística e parcerias com os municípios, preservando a política de utilização da capacidade de investimento estadual para financiar obras.
Na saúde, a estratégia passa pela conclusão e funcionamento da nova estrutura hospitalar e pela redução das filas.
Já em junho, Pivetta implantou uma tabela estadual de remuneração acima da tabela nacional do SUS para ampliar a participação de hospitais, clínicas e outros prestadores no Fila Zero.
A habitação ganhou peso adicional.
O Governo encaminhou à Assembleia proposta associada à construção de mais 60 mil moradias, dentro de uma operação que também busca preservar recursos para investimentos em saúde e infraestrutura.
Na educação, Pivetta procura preservar a estratégia que levou Mato Grosso a melhorar sua posição nos indicadores nacionais, mantendo investimentos em estrutura escolar, tecnologia e modelo de gestão. O próprio governador tem usado a evolução do Estado no Ideb como demonstração dos resultados dessa política.
Na segurança, uma das ideias defendidas por ele durante a construção da candidatura foi ampliar a utilização de guardas municipais armadas nas maiores cidades, trabalhando de maneira complementar às forças estaduais no enfrentamento às facções.
WELLINGTON QUER ESTADO MAIS PRESENTE
Wellington procura construir sua proposta a partir de uma crítica à prioridade dada pelo atual governo às obras e aos indicadores fiscais.
Sua expressão recorrente é a defesa de um “governo humano”.
Na prática, isso aparece na intenção de aumentar a presença estadual nas políticas sociais, habitação, saneamento e serviços prestados diretamente à população.
Na saúde, Wellington defende especialmente a regionalização.
O senador argumenta que a dimensão territorial de Mato Grosso obriga o Estado a aproximar consultas, exames e tratamentos dos moradores do interior, reduzindo deslocamentos de centenas de quilômetros.
No Araguaia, por exemplo, passou a defender a implantação de um Hospital Regional Universitário em Barra do Garças, articulado com instituições de ensino.
Habitação também aparece entre suas prioridades. Wellington vem defendendo programas que permitam reduzir a dificuldade de acesso das famílias de menor renda à casa própria e já destinou recursos para subsidiar a entrada de moradias populares em Cuiabá.
É no funcionalismo, porém, que a diferença com Pivetta aparece de forma mais explícita.
Wellington promete pagar a Revisão Geral Anual (RGA) e ampliar a participação dos servidores nas decisões administrativas.
NATASHA COLOCA SERVIÇOS PÚBLICOS NO CENTRO
Natasha procura construir um terceiro caminho.
Médica e estreante em eleições, ela leva a saúde para posição central, mas procura ampliar o discurso para políticas sociais, mulheres, servidores e desenvolvimento.
Um dos compromissos já apresentados é a criação de um fórum permanente de negociação entre Governo e funcionalismo, institucionalizando uma mesa contínua para discutir relações de trabalho, carreiras e reivindicações.
A candidatura também incorporou uma agenda específica para mulheres.
Uma carta construída com lideranças femininas reuniu 18 propostas destinadas a políticas públicas para mulheres, em um Estado no qual o enfrentamento ao feminicídio se tornou uma das questões centrais da segurança pública.
Natasha também enfatiza a necessidade de integração entre Estado e União para financiar investimentos, contrapondo-se ao discurso político que minimiza a participação federal em obras executadas em Mato Grosso.
Essa visão produz uma diferença importante em relação aos dois principais adversários: enquanto Pivetta enfatiza a capacidade financeira do próprio Estado e Wellington destaca sua experiência de articulação em Brasília, Natasha procura apresentar a parceria com o Governo Federal como instrumento permanente de financiamento das políticas estaduais.
MILLAS TRANSFORMA PROPOSTAS EM METAS
Rafaell Millas apresenta a estrutura programática mais diferente entre os quatro.
Seu projeto está organizado em eixos que combinam diagnóstico, proposta e indicador de resultado, criando metas que poderão ser objetivamente verificadas caso seja eleito.
Na segurança, propõe reduzir em 40% a taxa de homicídios em quatro anos, utilizando inteligência integrada, tecnologia, atuação na fronteira e cooperação com o Governo Federal.
Na saúde, estabelece como objetivo zerar a fila de cirurgias eletivas em 24 meses, com prontuário eletrônico único, divulgação periódica das filas e metas associadas à gestão.
Para a infraestrutura, propõe um plano rodoviário de dez anos, com metas anuais públicas e objetivo de manter 100% das rodovias estaduais em boas condições.
Na educação, pretende colocar Mato Grosso entre os três melhores Estados no Enem, combinando formação continuada dos professores, avaliação de resultados, premiação e expansão de escolas cívico-militares.
Sua proposta econômica enfatiza a industrialização.
Millas argumenta que Mato Grosso precisa deixar de depender excessivamente da exportação de commodities e ampliar o processamento da produção dentro do Estado.
Uma das metas é chegar a 20% dos grãos processados em Mato Grosso e dobrar as exportações de produtos industrializados.
AGRO UNE, INDUSTRIALIZAÇÃO DIFERENCIA
O agronegócio aparece nos projetos menos como ponto de confronto e mais como consenso sobre sua importância econômica.
As diferenças surgem na etapa seguinte.
Pivetta, ele próprio grande produtor rural, associa competitividade principalmente à infraestrutura, logística, segurança jurídica e manutenção de ambiente favorável aos investimentos.
Wellington procura acrescentar à produção uma agenda de infraestrutura e desenvolvimento regional.
Natasha enfatiza a articulação das políticas econômicas com desenvolvimento social e utilização das parcerias federais.
Millas coloca de maneira mais explícita a verticalização da produção no centro da estratégia, defendendo que soja, milho, algodão e outras matérias-primas sejam progressivamente transformados dentro do Estado antes da exportação.
SERVIDOR É PONTO DE CONFRONTO
Poucos assuntos evidenciam tão claramente as diferenças quanto a política para o funcionalismo.
Pivetta defende a política de valorização praticada pela atual gestão e sustenta que reconhecimento não deve ser medido exclusivamente por remuneração. Sua administração promoveu mudanças em diárias, adicionais e carreiras e tem destacado a presença de servidores efetivos em postos de comando.
Wellington promete pagar RGA e recuperar o diálogo com as categorias.
Natasha propõe institucionalizar esse diálogo por meio de um fórum permanente.
No programa de Millas, a discussão aparece mais vinculada a metas, desempenho, profissionalização da gestão e mecanismos de transparência.
É uma diferença que sintetiza parte da eleição: continuidade administrativa, ampliação de direitos, negociação permanente ou gestão orientada por resultados.
A QUESTÃO PASSA A SER COMO EXECUTAR
A apresentação dos programas muda também a natureza da cobrança aos candidatos.
Até agora, boa parte da pré-campanha foi construída sobre críticas, declarações de intenção e propostas isoladas.
Com os compromissos formalizados, a discussão pode avançar para questões mais objetivas.
Quanto custam as propostas? De onde sairão os recursos? Quais dependem exclusivamente do governador? Quais precisam da Assembleia? Quais exigem participação da União ou dos municípios? E quais possuem prazo e meta capazes de permitir que o eleitor cobre o próximo governador?
Essa será a segunda etapa da análise do DIÁRIO.
Mais do que identificar quem promete mais, a comparação dos programas permite descobrir quem explica como pretende executar aquilo que promete.
Fonte: www.diariodecuiaba.com.br
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