Loading Now
×

Facções se expandem em regiões de garimpo ilegal na cobrança por segurança, extração de ouro e tráfico

Dos 142 municípios de Mato Grosso, 92 (65,2%) convivem com a presença de facções criminosas. O estudo, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), ainda apontou a existência de organizações em 44,6% dos municípios amazônicos. Em algumas cidades, um único grupo domina a área, mas em outras os conflitos são recorrentes diante da coexistência com rivais. A fronteira com a Bolívia, rotas de difícil acesso e baixa fiscalização são fatores que favorecem a

 

O número, extraído do relatório “Cartografias da Violência na Amazônia”, revela a expansão das facções para além dos grandes centros urbanos, num processo de capilaridade que atinge cada vez mais as regiões no interior do país.

23.08.2025 Facções se expandem em regiões de garimpo ilegal na cobrança por segurança, extração de ouro e tráfico

O Comando Vermelho (CV) domina a atuação do crime organizado em Mato Grosso, estando presente em 85 dos 92 municípios citados no estudo. Dentre eles, o CV é a única facção presente em 71 cidades.

 

Além do CV, o estado conta com a presença do Primeiro Comando da Capital (PCC), Tropa do Castelar e Bonde dos 40 (B40).

 

Para Vladia Soares, professora de Criminologia da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), existem alguns fatores que explicam a importância do território mato-grossense para os grupos criminosos. O estado é rota estratégica para tráfico e logística, possui fronteira com a Bolívia (um dos maiores produtores de cocaína do mundo) e a interiorização, que permite a ocupação de regiões menos fiscalizadas, como áreas rurais e de garimpo. O município de Cáceres, por exemplo, é um dos locais com a presença de pelo menos 3 facções, devido à importância de sua fronteira com o país boliviano, que se alonga por cerca de 100 km.

 

“Muitas das disputas entre facções se concentram em municípios ao longo de grandes rodovias e corredores logísticos, como as estradas federais, que ligam o interior à fronteira ou a outros estados”, explicou a pesquisadora.

 

As conexões entre as facções e o garimpo ilegal têm se expandido. Uma reportagem da Agência Brasil revelou um dos “informativos” divulgados pelo Comando Vermelho, através do WhatsApp, a pessoas envolvidas no garimpo ilegal em Alta Floresta (803 km ao norte de Cuiabá). “Todos os trabalhos ilegais dentro do estado de Mato Grosso são prioridade e voltados à organização [o CV]”, diz uma das mensagens.

 

No caso da Terra Indígena (TI) Sararé, outra região bastante conhecida pela presença do garimpo, o CV deixou de atuar apenas como “segurança” e passou também a gerir a extração ilegal de ouro, controlando máquinas, trabalhadores, insumos e cobrando “mensalidades” em ouro de garimpeiros.

 

“A presença desse controle [na TI Sararé] é bem estruturada. Há registros de acampamentos, balsas, escavadeiras de grande porte, logística de combustível, transporte, etc., como se fosse uma operação empresarial, mas criminosa”, disse Vladia Soares à reportagem

23.08.2025 Facções se expandem em regiões de garimpo ilegal na cobrança por segurança, extração de ouro e tráfico

Uma operação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), no último mês de setembro, entrou na área denominada “Garimpo do Cururu”, na TI Sararé, onde estariam concentrados e escondidos criminosos da facção Comando Vermelho. A equipe policial foi recebida pelos com tiros de fuzil.

 

Segundo David Marques, gerente de programas e projetos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, para se defenderem das imposições do Comando Vermelho, os garimpeiros da região vêm se organizando em grupos armados (milícias), o que também ajuda a explicar o alto índice de mortes na região. Foram 46 assassinatos em 2024 (em 2022 foram 13, em 2023 foram 24) nos três municípios que abrigam a TI Sararé: Conquista D’oeste, Nova Lacerda e Vila Bela da Santíssima Trindade.

 

“Os faccionados do CV [estão] atuando diretamente nas operações, com investimentos na extração de ouro, reinvestindo o dinheiro do narcotráfico no garimpo legal de ouro”, argumentou Marques. “Esses garimpeiros, se organizando, formando milícias para resistirem a essa atuação do CV. Isso tem provocado um nível mais alto de conflitualidade”, completou.

 

Por sinal, Vila Bela teve a maior taxa de mortes violentas intencionais no último ano entre os municípios de até 20 mil habitantes. A região também faz fronteira com a Bolívia.

 

De acordo com o estudo, é justamente o aspecto fronteiriço, em paralelo à invasão de garimpeiros e organizações criminosas ligadas ao narcotráfico na TI Sararé, que explica o alto índice de violência.

 

Vila Bela da Santíssima Trindade é uma rota prioritária para entrada de cocaína produzida na Colômbia, transportada via Bolívia e distribuída para o restante do Brasil.

 

Contudo, o município não figurou entre as 50 cidades mais violentas na edição anterior do Cartografias. Portanto, “o agravamento da violência no território parece estar fortemente associado à intensificação do garimpo ilegal na Terra Indígena Sararé”, conforme aponta o relatório.

Fonte: www.gazetadigital.com.br

Share this content:

Publicar comentário