Queda na vacinação reacende risco de surtos de sarampo e pólio em Mato Grosso
A confiança nas vacinas, que por décadas sustentou a erradicação de doenças no Brasil, está em queda. Em Mato Grosso, os efeitos já aparecem em números preocupantes: dezenas de municípios registram cobertura vacinal abaixo de 50% em imunizantes fundamentais, como a meningocócica ACWY e a vacina contra o HPV. O cenário, que reflete uma tendência nacional, reacende o alerta para o retorno de doenças que haviam sido eliminadas, como o sarampo e a poliomielite.
Um levantamento do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), com última atualização em 16 de outubro no painel Cidadania – Vacinação, mostra que 42 municípios do Estado estão em situação crítica. A lista inclui cidades como Poxoréu, Vera, Castanheira, Porto Estrela e General Carneiro, todas com índices muito abaixo da meta de 95% estabelecida pelo Ministério da Saúde. Em contraste, apenas Canabrava do Norte, Rondolândia e Santa Rita do Trivelato atingiram níveis considerados ideais.
A discrepância revela um problema que vai além do acesso: a falta de compreensão sobre a importância da imunização, especialmente entre adolescentes. Um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em parceria com instituições de outros Estados, aponta que jovens de 10 a 19 anos têm baixa “literacia vacinal” — dificuldade em entender informações básicas sobre vacinas, seus benefícios e os riscos da não imunização.
A pesquisa, realizada com estudantes de escolas públicas e privadas em Cuiabá, Macapá, Teresina, Vitória e Curitiba, mostra que a desinformação — alimentada pelas redes sociais — é um dos principais fatores para a hesitação vacinal. Segundo o estudo, “melhorar a literacia vacinal é essencial para restabelecer a confiança e a adesão às vacinas. Sem compreender o porquê da imunização, adolescentes tornam-se mais vulneráveis à desinformação, o que ameaça décadas de conquistas em saúde pública”.
Para enfrentar o problema, o trabalho propõe o uso de tecnologias Cuidativo-Educacionais (CET), que combinam conteúdo científico e linguagem acessível para combater as fake news. A iniciativa será testada em escolas das cinco cidades participantes e validada em Sinop, a 398 km de Cuiabá. A proposta, segundo o estudo, é que “os adolescentes deixem de ser apenas receptores de campanhas e se tornem multiplicadores dentro das famílias e comunidades”.
Enquanto isso, os dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT) indicam que a adesão às vacinas segue longe do ideal. Em Rondonópolis, por exemplo, a cobertura da tríplice viral — que protege contra sarampo, rubéola e caxumba — é de apenas 73,7%. A vacinação contra a varicela (catapora) alcança 40%. Já em municípios menores, como General Carneiro e Poxoréu, a imunização contra o HPV feminino não chega à metade da população-alvo.
A vulnerabilidade já trouxe consequências concretas. Após quatro anos sem registros, Mato Grosso voltou a confirmar casos de sarampo em 2025. Cinco pacientes foram diagnosticados com a doença, e dois deles não possuíam histórico vacinal.
O alerta se repete no cenário nacional. O Brasil perdeu, em 2019, o certificado internacional de eliminação do sarampo, concedido pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), e desde então tenta recuperar o título. A poliomielite, erradicada desde 1989, voltou à lista de doenças em risco de reintrodução, segundo o Ministério da Saúde. Hoje, a cobertura nacional da vacina contra a pólio não ultrapassa 80%, bem abaixo da meta de 95% necessária para garantir a proteção coletiva.
A pesquisa destaca que a queda na imunização não é apenas reflexo da pandemia, mas também resultado de mudanças na percepção social sobre as vacinas. “A pandemia deixou um legado de desconfiança e saturação informativa. Muitas pessoas passaram a se informar sobre saúde pelas redes sociais, onde circulam conteúdos falsos e teorias conspiratórias”, aponta a pesquisa.
O impacto é ainda mais visível entre adolescentes — um público conectado, mas com pouca formação em temas de saúde. “Os jovens de hoje vivem em um ambiente digital em que qualquer pessoa pode se tornar fonte de informação. E quando o conteúdo é alarmista, cria-se uma sensação de medo e incerteza”, destaca o levantamento.
Apesar do quadro preocupante, alguns municípios de Mato Grosso conseguiram alcançar bons resultados. Rondolândia superou 95% de cobertura na vacina contra o HPV feminino, enquanto Canabrava do Norte lidera na imunização contra a meningocócica ACWY.
Fonte: www.vgnoticias.com.br
Share this content:






Publicar comentário