Segurança e qualidade de vida não são garantias na 3ª idade
“Marcas, só do tempo, não de dor”.
Esse é o tema do “Junho Violeta” deste ano, o mês dedicado ao debate sobre como o Brasil trata seus idosos.
Seria bom que o brasileiro entendesse que conviver, compartilhar as experiências de vida com idosos é um privilégio no exercício do amor e aprendizado.
Então, amar, respeitar e cuidar deveria ir além do cumprimento das exigências legais previstas no Estatuto do Idoso(Lei Federal 10.741/2003).
Mas, o que se constata, a partir de estatísticas, é que a violência contraria à ordem legal do direito ao envelhecimento sob proteção à vida.
No Brasil, passar dos 60 anos não é uma promessa de aposentadoria e longevidade em segurança, mas um risco de dor e sofrimento.
Em Mato Grosso, ao ano, cerca de 2.650 idosos vivem sob o risco de morte, conforme os registros policiais de lesão corporal e ameaças de morte.
Desses, uma média de 900 fica com seus corpos marcados por lesões decorrentes de agressões.
Em 2025, 21 pessoas com idade acima de 65 anos foram assassinadas.
Os quatro anos anteriores (2021,22,23 e 24) somaram 72 homicídios dolosos nas faixas etárias dos já passaram dos 65 anos, segundo o Anuário Estadual da Segurança, da Sesp-MT.
Os casos de lesão corporal que têm os idosos como vítimas também chamam a atenção.
Outros 200 são vítimas de maus tratos, ou seja, passam por situações de sofrimento físico ou mental e de crueldade.
O crime de injúria, com registros que variam de 700 a 900, mostra o quanto os idosos sofrem com ofensas orais em sua dignidade.
Delegado há 35 anos, o titular da Especializada de Delitos Contra a Pessoa Idosa, Marcos Veloso, diz que não imaginava como é difícil envelhecer para tantas pessoas.
“Eu nunca imaginei que fosse estar nessa delegacia e vivenciar o que eu vivo”, lamenta ele.
“É muito triste”, reafirma ele, que está completando 64 anos.
De acordo com Veloso, o mais grave é que 80% das ocorrências de violência ocorrem no ambiente familiar, ou seja, onde o idoso deveria receber amor e proteção.
Dona Rosa Maria Batista de Jesus diz que agora, aos 75 anos, pode dizer que vive em paz.
“Não gosto muito de falar sobre esse assunto. Perder um filho é motivo de luto e dor, mas, no meu caso, não foi bem assim”, começa ela.
“Meu filho, Rogério, um jovem lindo, forte e inteligente, poderia ser lembrado com amor, mas só penso nele com pena e culpa”, continua.
“O álcool o tornou uma pessoa agressiva. Tinha uma agressividade sem tamanho”, reclama ela.
Segundo dona Rosa, o filho até se casou, mas a mulher o abandonou por causa do alcoolismo e violência.
Rogério não teve filhos e passou a viver com a mãe após a separação.
“Vivemos décadas sob o mesmo teto sem nos entender”, lamenta ela.
“Nossa rotina era eu tentando curá-lo do vício e ele rejeitando todas as formas de tratamento”, diz ela.
“Deus o levou há cinco anos, de forma lenta. Deixou-o acamado por um ano, por conta das sequelas de um AVC (Acidente Vascular Cerebral)”, conta.
“Acho que, nesse período, tivemos tempo para nos perdoar um pouco, mas ainda não me libertei da culpa”, revela.
“Acredito que poderia ter feito mais”, completa a mãe.
Dona Rosa frequenta uma unidade pública municipal da terceira idade em Cuiabá.
DENÚNCIA – Violência contra o idoso pode ser denunciada pelo 190, de emergência da Polícia, e as centrais 100, 197, 180.
Fonte: www.diariodecuiaba.com.br
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